Resenha: 3096 Dias

No entanto, tudo em mim era um único grito. Que queria sair, mas permanecia preso em minha garganta: um berro mudo, como se fosse um daqueles pesadelos em que se tenta gritar, mas não se ouve som algum, em que se quer correr, mas as pernas se movem como areia movediça.
Foto: Reprodução/Casos Acasos e Livros

Você já se imaginou em um cativeiro por 3.096 dias? Dá para ter noção quanto tempo significa? Para Natascha Kampusch, cada dia foi uma tortura. Presa em um quartinho abaixo do solo, aos 10 anos de idade, Natascha foi obrigada a conviver com apenas uma única pessoa durante oito anos e meio, quase sem ver a luz do sol, ou ter contato com o mundo externo. O livro autobiográfico da austríaca narra detalhes de seus dias ao lado de Wolfgang Přiklopil, técnico em telecomunicações, de 35 anos, que a sequestrou em uma rua em Viena e a manteve presa em um cativeiro dentro de casa. 
Meu cativeiro não era quadrado - tinha cerca de dois metros e setenta de comprimento, um metro e oitenta de largura e quase dois metros e quarenta de altura. Onze e meio metros cúbicos de ar malcheiroso. Não chegava a cinco metros quadrados, e era nesse espaço que eu andava como um tigre enjaulado, sempre de uma parede a outra. Seis passos pequenos para frente e seis passos para trás correspondiam ao comprimento. A largura podia ser percorrida em quatro passos para frente e quatro para trás.
Durante a narrativa, destaca-se a maturidade de Natascha aos 10 anos de idade. Mesmo após o sequestro, a garota conseguiu calcular em sua mente todos os casos de meninas que foram raptadas e tiveram um final trágico, e com isso, tentava pensar diferente para não acabar na mesma situação. Bom tempo de sua vida no cativeiro foi baseada em se comunicar com o sequestrador, e por meio de séries televisivas e filmes, que a tiravam da solidão.
Meu confinamento solitário - o tempo que passei exclusivamente no quartinho, sem poder sair daqueles cinco metros quadrados - durou mais de seis meses; meu cativeiro, 3.096 dias.
Pode-se dizer que a garota sofreu agressões de todas as formas, entre eles, o sequestrador a fez mudar de identidade enquanto esteve presa. Para não lembrá-la que teve uma vida antes do sequestro. 
O sequestrador tirou de mim a família, a vida, a liberdade e a antiga identidade. A prisão física do cativeiro no subterrâneo, por trás das muitas portas pesadas, pouco a pouco fora complementada pela prisão psicológica, cujos muros eram ainda mais altos.
Durante a leitura, tive a sensação de que levara um soco no estômago a cada página. O que Natascha sofreu é algo que, pelo menos, a maioria das mulheres temem em passar, ainda mais quando se tem apenas 10 anos de idade. Assim, ela precisou amadurecer antes do tempo para aprender a lidar com a única pessoa que teve contato por oito anos e meio: o sequestrador.

E falando em amadurecer, com sua primeira menstruação, Natascha precisou orientar o próprio sequestrador, para que soubesse comprar o necessário, mas com isso, a paranoia dele aumentou, e a fazia sentar em pilhas de jornais, para não cair um pingo de sangue e não deixar vestígios de DNA, caso a polícia a procurasse em casa.

Um ponto muito importante mencionado por ela, foi ter sofrido a Síndrome de Estocolmo - quando uma pessoa passa a ter simpatia pelo agressor. Para ela, esse é um ponto delicado a se falar, mas não considera que tenha passado por essa síndrome, a comparando com crianças que esperam pelos pais na escola, mas que a tratam mal e mesmo assim, amam por serem dependentes desses adultos.

Durante o tempo em que Natascha esteve presa com Přiklopil, fez uma espécie de diário, onde contava todas as experiências de agressões sobre como o sequestrador a feria em diferentes dias. Confesso que achei bem pesado ler aquilo, tentando imaginar como ela sobreviveu a tudo isso. 
23 de agosto de 2005. Pelo menos 60 tapas no rosto. 10-15 socos na cabeça que me deixaram com náusea, quatro tapas com a palma da mão aberta na cabeça, um soco com toda a força na orelha direita e na mandíbula. Minha orelha ficou preta. Estrangulamento , soco no queixo, fazendo a mandíbula estalar, mais ou menos 70 golpes com o joelho no cóccix e no bumbum. Socos no cóccix e na coluna, na costela e entre os seios. Golpes com uma vassoura no cotovelo esquerdo e braço (hematoma preto-amarronzado) e no pulso esquerdo. Quatro socos no olho que me fizeram ver luzes azuis e muito mais.
Foto: Reprodução/Teoremas de Bar

Finalmente, após 3.096 dias, Natascha tirou forças de onde não tinha e escapou do cativeiro. Infelizmente, não tenho o livro para a minha coleção, e não aguentei esperar para comprar, então encontrei em um site para baixar em PDF, neste link. A história de Natascha também é contada em um filme, com o nome 3096 Dias de Cativeiro, e é possível encontrá-lo na Netflix.

Você já leu esse livro? O que achou? Tem algum com o mesmo tema pra me indicar? Amo histórias desse tipo, que mostram a força que mulheres tiveram para conseguir fugir. 

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